Uma pessoa não pode viver a vida de outra.
por mais perto que esteja, por mais necessidade
que haja, por mais vontade que tenha. Uma
pessoa nasce separada de todas as outras, vive uma
vida que é só dela e acaba por morrer no minuto
de uma hora que lhe é destinada. não deixa de
ser estranho apesar de não poder ser de outra
maneira. E duas pessoas sozinhas não fazem uma
pessoa acompanhada.Pelo contrário:a solidão de
uma potencia a solidão da outra, como uma lupa,
até ao fracasso. O fracasso aqui significa a desistência
o abandono, a busca de outra coisa.
Escrevo isto para me convenser que não vale
a pena contrariar a solidão que aumentava.Penso
nisto para acreditar o absurdo de andarmos misturados
e cegos e impenetráveis. Vivo isto porque
não tenho outra maneira de viver. Sinto o peito
oprimido por uma dor antiga que sei não irá
passar. Vejo a minha mãe, a minha mulher, o meu
filho como estrangeiros cujos corpos roçam o
meu e cada qual segue com o seu destino desalinhado.
Vem-me uma grande vontade de gritar
que silencio. A esta hora já ninguém ouviria.
"Amor Portátil"
Pedro Paixão
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